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10 junho 2019

Síndrome do Intestino Irritável: a importância de uma abordagem individualizada

A síndrome do intestino irritável é um distúrbio gastrointestinal funcional caracterizado por dor abdominal associada a alteração dos hábitos intestinais na ausência de uma patologia orgânica específica que justifique os referidos sintomas.

Estudos de base populacional estimam uma prevalência da síndrome do intestino irritável de 10-20% e uma incidência de 1-2% ao ano. A síndrome do intestino irritável é uma condição crónica que, portanto, acompanha o indivíduo ao longo de vários meses ou anos. Como consequência pode acarretar um impacto importante na qualidade devida, estando associada a elevadas taxas de absentismo (doentes com síndrome do intestino irritável tendem a faltar três vezes mais ao trabalho) e a uma sobrecarga importante dos serviços de saúde.

Apenas uma minoria dos doentes apresenta sinais e sintomas graves pelo que a maioria destes conseguecontrolar as suas queixas através de modificações da dieta, do estilo de vida e do stress. No entanto, um grupo significativo de doentes apresenta sintomas com impacto considerável na qualidade de vida e vai necessitar de aconselhamento médico e, eventualmente, intervenção farmacológica.

A causa específica da síndrome do intestino irritável não é conhecida, sendo que a evidência científica indica para uma interação de múltiplos fatores, nomeadamente alterações da motilidade intestinal, hipersensibilidade visceral, modificações no sistema imunitário intestinal, infeções gastrointestinais prévias e variações na microbiota intestinal.

Fatores de risco para o desenvolvimento de síndrome do intestino irritável incluem idade jovem, sexo feminino, história familiar e perturbações psiquiátricas.

A apresentação clínica da síndrome do intestino irritável pode variar, incluindo, na maioria dos casos:
dor abdominal, frequentemente do tipo cólica, que tipicamente alivia ou agrava com a defecação;
distensão abdominal e flatulência;
diarreia, obstipação ou uma alternância entre ambas;
muco nas fezes.

Apesar da variabilidade na apresentação clínica, é necessário ter atenção à presença de “sinais-alarme”, que devem indicar uma pesquisa mais exaustiva de uma patologia orgânica subjacente aos sintomas. Tais sinais incluem perda de peso, diarreia noturna, perdas de sangue, anemia, vómitos recorrentes, dificuldade na deglutição e dor abdominal persistente ou de intensidade crescente.

Na investigação diagnóstica poderão ser aplicados exames complementares que podem incluir análises ao sangue e/ou às fezes, estudos endoscópicos e exames de imagem. Neste aspeto é importante realçar que nem todos os doentes necessitam de ser submetidos a estudos adicionais para além da história clínica e que nem todos os testes diagnósticos são aplicáveis a cada caso.

 

Como tratar a síndrome do intestino irritável?

Apesar de haver medicações que podem melhorar os sintomas, não existe uma cura para esta condição. Uma boa relação médico-doente e a tranquilização em relação ao diagnóstico são fundamentais no tratamento, pois o stress e a incerteza podem agravar os sintomas. Modificações na dieta e no estilo de vida podem ser suficientes em alguns casos. No entanto, pode ser necessária intervenção farmacológica para ajudar no controlo dos sintomas, podendo incluir:
Medicamentos para controlo da diarreia;
Medicamentos para controlo da obstipação (laxantes);
Antiespasmódicos que diminuem a força e frequência das contrações intestinais;
Antidepressivos para controlada dor resistente a outras medicações, habitualmente utilizados em doses inferiores àquelas realizadas no tratamento da depressão;
Antibióticos para controlo da diarreia e da distensão abdominal em alguns doentes.

A maioria das pessoas tem esta condição ao longo da sua vida, adquire formas de melhorar os seus sintomas e portanto, adapta-se. A chave está no trabalho conjunto entre o doente e o médico, na procura da melhor forma de limitar os sintomas. Ao longo do tempo, menos de 5% dos indivíduos com síndrome do intestino irritável são diagnosticados com outra patologia gastrointestinal.

Fontes:
Schmulson MJ, Dross man DA. What is new in Rome IV. J Neurogastroenterol Motil. 2017 Apr 30. 23 (2): 151-63.
Spiegel BM, Farid M, Esrailian E, Talley J, Chang L. Is irritable bowel syndrome a diagnosis of exclusion?: a survey of primary care providers, gastroenterologists, and IBS experts. Am J Gastroenterol. 2010 Apr. 105 (4):848-58.
Sood R, Camilleri M, Gracie DJ, et al. Enhancing diagnostic performance of symptom-based criteria for irritable bowel syndrome by additional history and limited diagnostic evaluation. Am J Gastroenterol. 2016 Oct. 111 (10):1446-54.
Lacy BE. The science, evidence, and practice of dietary interventions in irritable bowel syndrome.
Clin Gastroenterol Hepatol. 2015 Nov. 13 (11):1899-906.

Redigido por Dr. Armando Peixoto (OM53340), Gastrenterologista no Trofa Saúde Hospital em Matosinhos, Alfena, Gaia e Senhor do Bonfim

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